Olho Composto

Olho Composto é um coletivo anónimo que surgiu em 2009. Começou por ser uma ideia que uniu a vontade de dois artistas que até ali se desconheciam.
O nome do coletivo surge enquanto metáfora da unidade composta que é o órgão visual dos artrópodes. Uma unidade sensorial composta por um conjunto de unidades– os omatídeos. Cada omatídeo é uma unidade independente que possui um pequeno campo visual, por isso aquilo que um artrópodes conseguem ver, resulta da junção de inúmeras imagens individuais. Cada uma dessas imagens também compostas, estão associados às respostas da sua inteligência, permitindo uma resposta comportamental apropriada à sua existência, à sua reprodução e sobrevivência da espécie.
O nome do coletivo emerge associado a esta possibilidade de reunir não apenas o resultado duma semelhança com esse dispositivo sensorial permitido pelo olho das moscas, das borboletas ou abelhas, mas apresenta-se como palavra que reforça a ideia de que um coletivo é um dispositivo positivo apesar de imperfeito, para pensar e agir no mundo. Dois seres humanos reunidos e a colaborar num objectivo que não definido pela necessidade ou qualquer agenda, têm mais possibilidades de criar novos caminhos do pensamento e da ação. Por isso o coletivo desponta como uma afirmação de possibilidades políticas e estéticas.
Nesta associação de ideias , o lugar da verdade retiniana circunscrita pelas suas possibilidades teóricas confinadas pela sua realidade mecânica e óptica, é substituído por formas de pensamento e da ação que apenas se podem desvelar através da conjunção – este(a) e aquele(a) ; eu e tu; eu, tu e ele. O coletivo apresenta-se como possibilidade de construção sensível, sabendo de antemão que existe uma constante, a existência de erros e fracassos, do inacabado.
Deste modo, tudo aquilo que à partida na sua improbabilidade poderia determinar o fim do coletivo, reúne as condições para ultrapassar barreiras ou impossibilidades comunicativas, determinadas pelo tempo, pela personalidade e singularidades de cada um. O identificar de novas configurações problemáticas é o ponto de partida em atualização infinita e que define o início ou a continuidade de cada momento cogitativo ou de realização prática.

Por isso, anonimato das identidades dos membros deste coletivo surge intencionalmente e assumidamente como um risco permanente. Aquilo que permite que o coletivo perdure, pode também fragmentá-lo e impossibilitar a sua existência. Permitir que as singularidades potencialmente subjacentes, possam emergir, exige esforços de associação da prática artística atenta a diversas formas de censura. Os seus discursos individuais, nas suas idiossincrasias pode por vezes, limitar a liberdade e a construção de uma nova morada onde a liberdade logre habitar. Por isso, o anonimato do coletivo apesar de incerto, pode facilitar o emergir dum território de abertura ao devir, oferecendo aos que dele fazem parte algo que poderá constituir uma oportunidade que poderá possibilitar a afirmação de qualquer forma insuspeita de dominação ou subjugação. O interesse e o ponto de partida comum, definem-se nas condições encontradas para viabilizar compromissos que evitem no interior da sua tessitura a criação de cartografias que mimetizem o exercício ou a luta de poder . Não existem quaisquer regras ou fórmulas definidas. Apenas o que aparece em cada nova situação, apresenta define o caminho a trilhar.

A composição do coletivo tem-se modificado e metamorfoseado ao longo dos anos, adequando-se e sendo fruto da contingência dos projetos desenvolvidos. Um coletivo avesso a um nós imperativo, definido a priori por funções e lugares próprios de uma hierarquia vertical. As singularidades e os seus processos identitárias tornam-no instável, mas possibilitam que se afirme no que ainda não existe, no que precisa de ser construído, no que que impele para a inevitabilidade de que qualquer construção. É pressuposta a presença do conflito e a probabilidade enorme de que aquilo que é pensado possa resumir-se ao erro e ao fracasso. Assim, vários têm sido os que se associaram ou separaram e, o que torna este coletivo numa unidade que não possui um número fixo, determinado e permanente de elementos.
Da pura curiosidade à reflexão crítica, entre as coisas do mundo e da vida, o coletivo tem-se debruçado sobre o que motiva e serve de motor para a praxis e para a teoria dos artistas de hoje, sem olvidar a tipologia relacional existente nas relações intrínsecas com a comunidade onde vivem e operam.